Despejo Bethânia em mim.

E todas, todas as Marias brotam e gritam no meu peito.

Tem Maria que sorri, mas tantas outras estão aos prantos.

Elas choram, elas gritam, elas imploram, enquanto eles matam.

Ninguém vê, ninguém viu, o tempo parou ali, faltou ar, os olhos fecharam, a vida sumiu.

“Não mexe comigo, não mexe comigo que eu não ando só”.

Ando com todas elas, morro um pouco com cada uma.

Quando me arremessam da mesma janela que eu costumava apreciar a vista.
Quando as mãos grandes e ásperas que já foram acalanto, agridem meu rosto.
Quando meu corpo tão meu é tomado, invadido por ele.

Todo dia, todo “santo” dia é uma, não, são duas, três, quatro, doze, do-ze Marias a menos no final do dia.

A Maria que antes sorria, agora só chora.

“Para de chorar mulherzinha”, mulherzinha?

Me toco, me molho, me sinto, me cheiro, me mordo, me aperto.
Quando foi que eu deixei de gozar, digo, de gostar de mim? Aqui não tem nada de “inha”.
Quero gritar, mas não por socorro.
Quero gritar: go-zei, foi gostoso!

Acredita Maria, levanta Maria, se reinventa Maria.

A angústia, o lamento, o silêncio, a dor, a morte.

A esperança.

A Maria que antes chorava, agora luta, luta em meio ao caos, ao luto.

E todas as Marias ainda vivem em mim.

A Marielle, a Tatiane, a Fabiana, a Francisca, a Fernanda, a Gisele, a Luana…

Todas, todas, repito: todas!

Vivas, bem vivas.
Fortes, muito fortes.
Livres. Tão livres.

E as Marias dançam.

E as Marias sonham.

Sonham com respeito e vida em abundância, tomando o lugar dessa brutal e imunda ignorância.