Desde 1990, ano em que vim ao mundo, ainda não tinha tido o desprazer de viver em um cenário tão crítico e tão perverso como o do nosso país nesse momento. Até então eu só tinha estudado o caos na sala de aula ou ouvido as histórias através do testemunho dos meus pais e pessoas mais experientes.

Pela primeira vez eu sinto com meu próprio nariz o cheiro de merda que toda bandidagem tem espalhado por aí. Pela primeira vez eu cruzo com olhares perdidos, sem esperança, seja na fila do pão, no ponto de ônibus, no banco na igreja. Pela primeira vez eu saboreio o gosto do desemprego. Pela primeira vez eu vejo pai e mãe de famílias engolirem seco o “não autorizada” na fila do mercado.  Pela primeira vez eu olho para o mundo e percebo que nem mesmo a minha miopia está me impedindo de ver tudo, tudo, tudo que está diante dos meus olhos.

A gente sempre cria boas expectativas para as “primeiras vezes”, espera com otimismo e frio na barriga, dessa vez tem sido confuso ver tudo isso pela primeira vez e não sentir nenhum prazer, mas ainda assim tenho procurado manter um sorriso sincero no rosto e um otimismo autêntico no coração. Para não deixar isso morrer, passo horas, às vezes até dias ou noites em claro pensando: qual será que é o grande mal do mundo e como minimizar ele pelo menos nos meus dias?

Dia desses fiz essa pergunta como quem não quer nada no face, a resposta da maioria não me surpreendeu: o grande mal do mundo é o ser humano. Apesar de não ficar surpresa, pensei: temos um problema muito menor do que imaginamos talvez. Se nós mesmos somos o mal do mundo é porque a solução também mora em nós, ela dorme e acorde com a gente, ela caminha com a gente todos os dias, ela vai com a gente no mercado, no bar, no banco, na balada, no trabalho. Ela conversa com a gente dia e noite, não dá trégua. Nós somos o tal do ser humano e como nós não podemos ou não devemos nos acabar, nos resta nos reciclar.

Não somos um pacote compacto de erros, a gente tem sim coisas boas, às vezes acho que a gente só não está sabendo usar aquilo de bom que tem. Talvez o mal do mundo não sejamos nós, propriamente ditos, mas sim a postura incoerente que nos permitimos assumir quando olhamos o erro do outro e nos sentimos no direito de errar também.

Não é assim que a porra toda vai para frente, não é assim que o problema vai se resolver, se a gente devolver na mesma moeda, a gente vai levar torta de merda na cara, então o que a gente precisa é ser coerente, justo, bom, honesto, do bem, empático, mesmo que o mundo tenha mostrado que esse caminho é muito mais árduo que o outro.

Como diz uma das composições musicais que gosto: pela minha lei a gente É obrigada a ser feliz. Que a gente seja humilde a ponto de perceber e sentir a felicidade em meio ao caos vivido.

Sei lá, queria compartilhar um pouco de otimismo, ele está em extinção.