_d30308Cada pessoa é um mistério e é no mistério de cada pessoa que se revela a grandeza e a beleza de viver a experiência do encontro, muitas vezes é ela que dá sentido à vida. A dificuldade de hoje talvez seja viver essa experiência com profundidade, sensibilidade e verdade. O caos em que estamos vivendo, muitas vezes faz com que a gente chegue apressado, afobado e sem tato nesse encontro com o outro e com isso, como diz Bauman, vivemos tempos líquidos, vagos, superficiais.

E aí abro um parêntese. Você já visitou algum Museu? Museu, como todo mundo sabe, é o lugar onde se preserva obras e feitos significativos, valiosos, preciosos. Quando vamos visitar um espaço desse, normalmente seguimos uma série de regras de visitação. Os horários de visita são bem definidos, os objetos pessoais devem ser guardados, não é permitido correr ou gritar em qualquer área, não é permitido tocar nas obras em exposição, em alguns, nem mesmo podemos entrar com os nossos sapatos, entre outras inúmeras particularidades. A curiosidade disso tudo é que ao sair de lá, nós saímos transformados, mas tudo naquele espaço continua intacto.

Ao encontrar alguém, o segredo do sucesso, talvez seja exatamente esse. Usar as mesmas regras de visitação, afinal, dentro de cada um existe obras-primas tão particulares que além de respeitadas, devem ser preservadas. Devemos acessar o outro com cuidado para que nossa visita não seja motivo de destruição. Limpe os sapatos e sua mente, sujeira e julgamento não agradam ninguém. O olhar precisa ser fraterno para que você reconheça os espaços que podem ser tocados ou não. Respeite os horários de visitação e saiba a hora de chegar ou de sair. Aprecie e admire sem moderação a riqueza que ali se encontra, mas lembre-se das limitações dessa visita.

Se permitido for, fique o tempo que desejar, transforme-se ao tocar o outro. Aprenda, mas também ensine. Construa novas obras, separado ou junto. Compartilhe as inúmeras histórias que ali existem, dê risada e chore com cada uma delas. Estabeleça conexão com as pessoas que passaram e passam por ali, elas ajudam a garantir a profundidade do seu conhecimento com relação aquela pessoa. Ame e compreenda com sinceridade as falhas do percurso, os defeitos moldados com o tempo. Entregue-se. Renove-se. Repense, reveja, refaça. Faça amor fora de hora e se precisar até fora da cama. Misture-se, seja dois em um, mas no instante seguinte lembre-se que é um.

Se um dia desejar sair, saia com cuidado. Assim como no museu, existem regras para entrar, mas não para sair e diferente de lá, quando se trata de alguém, você sai transformado e o outro também. O local nem sempre fica intacto e nesse caso não é interessante que fique mesmo, as vezes colocar tudo no lugar exige paciência e respeito pela dor. Organizar a bagunça nos faz sangrar, se isso acontecer, lembre-se do cuidado e do amor com que a visita tratou todas as suas preciosidades nos dias que por ali ficou.

Podemos fechar as portas temporariamente para manutenção, mas é preciso lembrar que a beleza da vida consiste em expor nossas preciosidades na certeza de que essa troca com o outro é combustível de vida, é o que nos faz maior e melhor a cada dia.

Permita-se viver a experiência do encontro em sua essência todas as vezes que o olhar de alguém sorrir para o seu e ao receber novas visitas, mostre tudo que existe de bom aí dentro, sem medo, afinal, não importa quem sumiu e por quanto tempo ficou e sim quem somou!