12552900_347915698710702_7733323705435546243_n (1)O mês de março é marcado como sendo o mês das mulheres, embora eu acredite que todos os meses são nossos, é bom aproveitar o momento para falar ainda mais sobre isso. A incansável busca de nós mulheres pela equiparação de direitos têm ganhado cada vez mais força. Ao longo da história, inúmeras mulheres compraram essa “briga”, das maiores as menores lutas, muitas tem inspirado importantes transformações que impactam na vida de muitas, mas muitas mulheres.

Para gerar essas transformações muitas vezes as líderes desses movimentos enfrentam batalhas que ninguém fica sabendo, cabe a nós estar atento e dar visibilidade a isso. Hoje vamos conhecer a história da Goretti Bussolo, uma mulher forte e guerreira como outra qualquer, que luta todos os dias para minimizar um dos maiores problemas enfrentados pelas mulheres: abusos e violência de qualquer natureza. Goretti é fundadora do Instituto Todas Marias, conheça um pouco melhor essa história, acompanhando a entrevista realizada com ela:

J: Goretti, poderia me falar o que é o Instituto Todas Marias?

G: O Instituto Todas Marias é um projeto de transformação de mulheres que doem. Somos uma organização não governamental (ONG) engajada na busca pela conquista efetiva dos direitos e igualdade das mulheres perante a sociedade.

J: Onde e como tudo começou?

G: Aos 12 anos, ainda menina, recém-saída do sítio onde morava, trabalhava como empregada doméstica, conheci a violência ao ser estuprada por 4 homens, um deles era o meu patrão. Foram anos de silêncio e sofrimento, guardava esse segredo por medo, vergonha. O que minha família e a sociedade iriam pensar se eu falasse? Nunca mais fui a mesma, me relacionei com outros homens que também me feriam, casei com um deles, hoje tenho medida protetiva com meu ex-marido. Sempre me mantive em contato com outras mulheres em situação de violência, queria poder diminuir a dor delas e por consequência diminuir a minha também.

Quando consegui abrir minha história para mundo, deixei de ser refém da violência, conheci a liberdade, conheci o que é viver sem culpa, culpa que nós mulheres adoecidas pela doença deles nos deixamos contaminar. Queria e quero que mais mulheres se transformem como eu me transformei, quero que mais mulheres possam andar na rua sem olhar para os lados, que possam se sentir donas de si ao olhar no espelho. Gostaria que mais mulheres que já sofreram algum abuso possam deitar a cabeça no travesseiro sem que ecoe na mente os lixos verbais que já foram escutados.

J: Quando você percebeu que era necessário formalizar esses desejos de transformação?

G: Fui convidada a dar uma entrevista e contar a minha história para a revista “Sou Mais Eu”, meu relato ficou alguns dias na capa da UOL, a partir disso, muitas mulheres começaram a me procurar, por facebook, por e-mail e etc. Depois disso, fui convidada para participar de um programa de auditório, após o programa, mais de 2 mil mulheres e 21 homens me procuraram em menos de dois meses. Quando percebi, estava atendendo por internet, indo nas casas e fazendo contato com outras entidades nas mais variadas cidades e estados do Brasil.

As mulheres e principalmente as meninas que me procuravam passaram a me ver como um remédio para suas dores, por já ter sentido o que elas sentem.  Comecei a me sentir sobrecarregada, a ponto de não conseguir mais descansar, lidar com o sofrimento o tempo todo não é nada fácil. Meus amigos mais próximos começaram a me ajudar e buscamos orientação de como ser de fato útil a essas mulheres e meninas, somente ouvi-las não era suficiente, era preciso buscar ajuda especializada de uma equipe de psicologia e um apoio jurídico pelo menos.

Daí a necessidade de dar uma resposta a essas mulheres, então a ideia da criação de uma ONG em que pudéssemos dar esse suporte de maneira mais estruturada.

J: Qual é o principal objetivo da ONG?

G: Temos como principal objetivo auxiliar mulheres segregadas que sofreram e ainda sofrem abusos e violência de qualquer natureza, oferecendo suporte que possibilitem tirá-las da dependência econômica, social e emocional, entre outros, que as tornam vulneráveis e prisioneiras do ciclo vicioso dos seus cônjuges, namorados, patrões e demais abusadores. A ideia é prestar atendimento terapêutico através de parcerias com entidades e órgãos competentes de saúde, assim como, junto a profissionais competentes nas áreas de atendimentos específicos, encaminhamento à Delegacia da Mulher, a Casa da Mulher Brasileira e demais entidades, de acordo com a necessidade e a gravidade de cada caso.

J: Você poderia me falar um pouco sobre a proposta de trabalho? Qual o diferencial do Instituto Todas Marias?

G: Nosso projeto é focado em transformar vidas, prestando atendimento não só para denunciar, mas no pós-denúncia também, procuramos dar suporte completo a essas mulheres para que consigam continuar suas vidas longe da violência. O foco principal é devolver-lhe via oficinas terapêuticas e autoestima o amor próprio. O diferencial é que também atendemos homens vítimas da violência doméstica e agressores que se dispuserem ao tratamento como tentativa de salvar suas famílias e a eles mesmos, após eles terem cumprido as medidas da lei.

J: Quais os maiores medos?

G: Medo temos de muitas situações: de por nossa vida de nossos familiares em risco, com represálias de companheiros das vítimas. De não ter condições de arcar com as despesas, de não dar o suporte necessário que elas precisam para concretamente deixarem o ciclo da violência, de precisar receber uma renda mensal para nos dedicarmos integralmente a essa luta. Por ser uma instituição nova, ainda não temos credibilidade com os apoiadores, entre outros milhares de medo, mas independente de tudo isso, o medo nunca será maior que nosso desejo em transformar a vida, desistir é uma palavra que dificilmente será dita por um de nós. Superamos essa fase. Temos uma missão, e essa missão nos faz enfrentar o que vier.

J: Quais são as principais dificuldades enfrentadas?

G: Pagar os funcionários fixos e o aluguel de uma sede em que possamos atender as mulheres sem que tenhamos muitos riscos; não ter um segurança durante o tempo de funcionamento da instituição. Na sede ter espaço para aplicar as oficinas de transformação bem como obter esses recursos para a formação delas.

J: Como foi a luta para captação de recursos financeiros?

G: A luta é diária e constante. É muito difícil conseguir apoiadores financeiros. Temos voluntários para quase todas as oficinas, mas não para estrutura delas. Enviamos ofícios com os projetos nos editais divulgados de inúmeras empresas, mas pelo CNPJ ser jovem, não passa nos critérios dos editais. Pela falta de recurso ainda não conseguimos mostrar os trabalhos que já foram realizados, mas já atendemos mais de 70 mulheres e meninas e 6 homens, 2 deles estão em terapias de apoio e auxílio jurídico.

Já tivemos várias promessas de “apoiadores” que não cumpriram com o recurso e também já fomos vítimas de oportunistas, pessoas com intenções escusas, com a gente não fica, quando identificados são cortados imediatamente. Somos sérios, temos um portal de transparência onde toda a prestação de conta fica exposta e comprovada, justamente para ganharmos credibilidade e com isso conseguir novos apoiadores.

J: Como são estabelecidas as parcerias? Quem são os parceiros? Quem apoia o Projeto?

G: Por enquanto, ainda estamos mais entre amigos, infelizmente, gostaríamos de ter muitas parcerias e estamos em busca disso. A PUCPR nos deu um apoio nos acolhendo como Instituição parceira no Trote Solidário. A CUT nos apoiou com banners e faixas de divulgação. Um professor de direito auxilia com o aconselhamento jurídico. Estamos aguardando com muita esperança mais dois projetos que estão em fase de aprovação.

J: Quantas horas vocês trabalham por dia?

G: Olha, difícil dizer quando não estou trabalhando com algum desses pedidos de ajuda ou escrevendo projetos, divulgando, etc. Por enquanto atendo sim sábados e domingos via internet, mas assim que tivermos uma sede física, colocaremos horário para atendimento, e fins de semana só vamos participar em eventos ou palestras que formos convidados. Precisamos todos de nosso tempo de descanso e lazer com a família.

J: Quais são as principais urgências hoje?

G: Estrutura física (sede), recursos para as despesas de manutenção e salários do corpo fixo de funcionários e apoio de profissionais da área da saúde, principalmente psiquiatras e psicólogos.

J: Seu sonho tem limite? Onde quer chegar com a ONG?

G: Penso que o limite é a lei, não podemos passar por cima dela. Não atenderemos mulheres ou homens que não tenham intenções em se livrarem de seus crimes.  Queremos que nosso projeto vire projeto de lei. Que os homens não tenham direito a fiança, mas tratamento compulsório ou a violência nunca terá fim. A doença é deles, e as mulheres que são tratadas. Os homens saem da cadeia ou cumprem os serviços comunitários, mas continuam com a doença e voltam a praticar a violência com a mesma mulher ou com outra. É necessário tratar o foco, a causa.

Um dos meus sonhos e ter uma equipe de pesquisa cientifica que estude a violência e seus tentáculos. A causa que as mulheres permitem ser reféns desses homens que as ferem. O que as bloqueia além do medo e da dependência financeira na hora da denúncia. Queria que as pessoas desenvolvessem um estudo sobre o porquê os homens batem em mulheres, porque as mulheres permitem, perdoam e continuam nesse ciclo de violência e o que as leva somente a relacionamentos com homens do mesmo perfil.

J: Qual é o caminho para quem deseja criar uma ONG?

G: Conhecer a causa em profundidade e os trâmites legais com um profissional competente na hora de criar o estatuto.

J: Gostaria de deixar uma mensagem para os leitores?

G: Nunca condene uma mulher ou menina que vive em situação de violência. Não façam juízo de valor. Não dê a desculpa para a violência que é uma doença deles, do machismo deles, para as roupas que ela usa, no modo que se relaciona com a sociedade. Jamais ensine seu filho que existe moça para casar e para pegar, estará criando um machista. Não ensine sua filha somente a se dar o respeito, mas a exigir respeito.  Faça com que todos entendam que não é o comprimento da saia que induz a violência, mas a violência que está dentro do abusador. Reflita qual é o tamanho do seu preconceito com as diversidades. Respeite o ser humano e entenda que cada um pode ser o que quiser, desde que tenha respeito, assim estaremos contribuindo para um mundo mais tolerante, mais igual.

J: Caso o leitor tenha interesse como ele pode contribuir?

G: Para ser um apoiador da nossa causa, o leitor pode doar qualquer valor. Precisamos de apoio financeiro para dar suporte as oficinas para as mulheres e meninas depois que denunciam e precisamos urgentemente de uma reforma no espaço que sediaremos a ONG. A doação não precisa obrigatoriamente ser em espécie, pode ser em serviços, se responsabilizando pelas notas dos materiais e mão de obra.

Goretti Bussolo – Presidente do Instituto Todas Marias.

Que consigamos multiplicar o número de “Marias” como a Goretti pelo mundo. E se você deseja ser um apoiador da causa, faça sua doação ou entre em contato.

Conta bancária:

Caixa Econômica Federal: Agencia 0998 | Operação 003 | Conta corrente 3608-2.  A ONG também aceita Cielo.

Contato: ongtodasmarias@gmail.com

Facebook: Instituto Todas Marias.

Gratidão Goretti e parabéns pela coragem e pelo trabalho!