culatraSegundo John Locke, a mente humana é, ao nascer, uma tabula rasa, um papel em branco sobre a qual a prática do mundo externo e a reflexão do indivíduo sobre si mesmo imprimirão aqueles sinais que denominamos conhecimento, à medida que vamos acumulando experiências vamos pintando sobre essa página em branco algumas cores, a nossa expectativa e a dos outros é que no final de tudo a gente construa uma grande obra de arte, repleta de coisas bonitas, leves, dignas de admiração, porém, na prática não é bem assim.

O fato de sermos responsáveis pelas consequências dos nossos atos, não nos isenta de cometer erros, muitas vezes porque não calculamos o preço que se paga por eles, dos mais simples como uma discussão boba com a melhor amiga, aos mais graves, como latrocínio, estupro, etc., viramos reféns das nossas escolhas. Escolhas boas, consequências boas. Escolhas ruins, consequências ruins. Isso parece justo, não? O grande dilema aparece quando nos deparamos com situações em que o contexto social inteiro interfere na escolha de uma pessoa, os envolvidos ou os culpados são inúmeros, mas quem paga o preço é uma pessoa só.

Quando percebemos isso nos sentimos grandes na arte de sermos pequenos e diria até hipócritas, o conceito de justiça acaba sendo utópico e a prática do julgamento que nos é tão rotineira acaba sendo questionada. Qual é a minha culpa? Qual é o fardo que carrego? Quem sou eu para fazer isso? O caminho é acolher ou isolar? Qual é a minha responsabilidade? Tenho o direito de julgar? As vezes parece que o ser humano está conquistando seu título de PhD na arte de ser animal irracional, repito, IRRACIONAL, aquele que não pensa, enquanto que a solução é exatamente o oposto disso.

Temos sim culpa nas tragédias que estão acontecendo em Mariana, em Paris, na Síria, no Haiti ou em qualquer outro lugar do mundo, assim como também temos culpa dos absurdos cometidos por todos os políticos que estão à frente do nosso país. Temos culpa dos preconceitos, da desigualdade de gênero, dos negros não terem as mesmas oportunidades dos brancos. Temos culpa pela superlotação e falta de estrutura e humanização dos presídios. Somos também responsáveis pela desigualdade, pela injustiça, pela falta de acesso à educação. Somos culpados pela situação em que as mulheres privadas de liberdade vivem, independente do crime que cometeram. Somos culpados pelas inúmeras vidas que são tiradas das crianças. Somos culpados pelo ser humano não estar sendo tratado como tal em inúmeros lugares e situações diferentes. Tá percebendo que a gente está vivendo numa prisão sem grades?

O problema é que nos isentamos facilmente da culpa, tornamos as realidades que não são agradáveis aos nossos olhos em realidades invisíveis. E não estou falando que só você é egoísta não, eu faço parte dessa massa, ainda não encontrei o caminho para ser diferente, porém, já abri os olhos para isso e talvez esse seja o primeiro passo, mas estamos longe de fazer da nossa folha em branco uma obra de arte. Somos culpados, mas nos colocamos na posição de juízes, justiceiros e julgadores, esse é o nosso erro, esse é o nosso crime e nosso crime não compensa!