* Características, informações e dados da história dos sujeitos envolvidos modificadas para preservar a intimidade dos mesmos.

No último final de semana participei de uma vivência psicodramática terapêutica fortíssima. Um menino de 23 anos queria trabalhar em si mesmo a “criança ferida”. Ele contou ao grupo que durante toda a vida foi excluído da maioria dos grupos sociais e também da família.

Estava tentando dar novo significado a si mesmo, num processo de transformar psiquicamente tudo que tomou para si desde sempre. Ele aceitou que era feio, chato, gordo, e todas as coisas horríveis que todos diziam que ele era.

O diretor e facilitador do trabalho pediu a ele que escolhesse alguém para representar essa criança ferida, e seguiu-se um diálogo espontâneo entre o menino, e a sua “criança ferida”. O menino pedia, para que aquela parte dele fosse embora. Queria se sentir forte e capaz, e perceber seu valor. A criança, representada ali, não se convencia, e depois de intervenções seguidas do facilitador, o menino entrando em contato profundo com aquele sentimento de incapacidade, deixou vir o choro compulsivo e a emoção. Muito emocionado e cheio determinação, expulsou a criança ferida.

De acordo com o psicodrama, e com a psicologia, de forma geral, uma questão dolorosa só pode ser transformada internamente, quando a emoção vem à tona.

É preciso que se entre em contato com a dor, para poder efetivamente caminhar em direção a cura.

É por isso que os processos terapêuticos, algumas vezes são difíceis e sofrem resistência de tantas pessoas. É ruim entrar em contato, sentir a dor. Mas é o único jeito real de se lidar com ela.

Se não olhar para dor, para sombra e para os monstros que te machucam, eles não podem ceder.

Só é possível transformar aquilo que é conhecido. Se não for assim, “joga-se a sujeira em baixo do tapete”, e uma hora ela aparece, e reaparece.

É preciso reconhecer a dor, aceitar a dor, acolher a dor, para só depois manda-la embora.

Às vezes, é verdade, o adulto precisa colocar limite na criança: “Chega! Para com isso! Estou mandando!”.

Mas também é necessário pega-la no colo, nina-la, compreende-la, ensina-la. Trazer o adulto interno para conversar com ela amorosamente.

Quando a criança é aceita e compreendida, fica livre para trazer seu lado espontâneo, alegre e criativo, para brincar junto com o adulto e fazer da vida mais doçura, mais leveza, e mais equilíbrio.

Integrando a criança interna, aprendemos a identificar os momentos em que ela vem e interfere no adulto em nós, trazendo impulsividade, ciúmes, exigências, sendo mimada e egoísta.

A gente olha para ela, compreende, nina, acolhe, sorri, e ela silencia.

Com a integração e o reconhecimento do adulto, vem a capacidade de discernimento:

Quando alguém me dá algo, cabe a mim aceitar ou não aceitar aquilo que me está sendo dado.

Você tem tomado para si aquilo que os outros dizem que você é?
Você é aquilo que os outros dizem?
Você tem autorizado às pessoas a decidirem quem você é?

grito