* Definições de termos ao final do texto.

O ego é considerado um grande inimigo do progresso espiritual e da vida de forma geral.

Você com certeza já escutou isso.

Ele é considerado um inimigo, porque é egoísta, mesquinho, briguento, implicante, e algumas vezes pessimista.

Para o bem de nossa vida, podemos (devemos) aprender cada vez mais a controla-lo, disciplina-lo, conduzi-lo. Mas não querer “elimina-lo”. Nunca, em hipótese alguma.

Aquele é só um lado dele.

Deixa-me contar uma história:

Quando eu cursava a faculdade de psicologia, fiz estágio por alguns meses em um hospital psiquiátrico de Curitiba. Em uma manhã, sentei do lado de um senhor, que de olhos fechados, mantinha as mãos, uma sobre a outra, em cima do centro do peito; parecia que orava. Depois de uns instantes, abriu os olhos, me viu ao seu lado, e com um sorriso perguntou:

– Você sabe por que estou aqui?
– Não sei. Por quê?
– Porque eu sou Jesus, e ninguém acredita em mim quando digo. Minha vida toda me foi dito pra encontrar Jesus, e quando senti que Jesus sou eu ninguém acredita em mim. Qual é seu nome?
– Gabriela, respondi.
– Não! – começou a gritar comigo de forma agressiva – Você é Jesus!!!

O Seo José se descontrolou, teve um acesso de fúria, os cuidadores vieram, e aí, camisa de força, calmante na veia, e todas essas coisas que são feitas com os “loucos em surto”.

Eu tenho um conhecido, que um mês depois de ter tomado um chá usado em rituais holísticos, para expansão espiritual de consciência, precisou ser internado num hospital psiquiátrico, tido como “louco”.

O que aconteceu com ele?

Sentiu-se conectado com toda a luz existente dentro dele, relata.

A luz demais é perigosa, cega, aliena e enlouquece. Enlouquece porque nós, seres humanos que somos, não damos conta de lidar com tanta luz.
A luz demais é do campo dos deuses, do inconsciente, do divino, dos arquétipos.

Jung, pai da Psicologia Analítica, dizia, que qualquer movimento do ser humano de identificação demasiada com algum arquétipo, é destruidor na certa; é ONIPOTÊNCIA diante do divino.

Mergulhar na luz e se esquecer da sombra, é negar a condição humana de ser, e isso é muitíssimo perigoso.

Meu conhecido, saia dizendo aos quatro cantos que era mensageiro de Jesus, que era iluminado, e que nenhuma corrente jamais seria capaz de prendê-lo, porque seu espírito é intangível, intocável.

De fato, o é.

Eu, e mais uma parte significante do mundo, consideramos essa, uma verdade espiritual: Meu espírito é sempre livre, quando estou conectada com meu coração sou mensageira do divino, e sou sim, um ser iluminado.

Essa parte significante do mundo e eu, não estamos num hospital psiquiátrico, porque nosso ego continua forte e presente.

É meu ego que me separa do resto do mundo. Separa-me de todo meu excesso de luz e de todo meu excesso de sombra.

Meu ego me faz ficar em mim mesma. Pra viver a minha luz, e a minha sombra.

Sem o ego, eu e todo o Universo somos um só. O “eu” não existe mais. Nem o “meu”. E pra viver aqui nesse planeta, como seres encarnados, nós precisamos de LIMITE: Até aqui eu sou una com tudo, a partir daqui sou eu, no meu. Já dizia a Marusa, minha grande professora de Psicologia, quando eu saia abalada de algum atendimento:

– Saiba sair do campo do outro, e repita mentalmente:

O QUE É MEU É MEU, O QUE É SEU É SEU, EU FICO COM O QUE É MEU, VOCÊ FICA COM O QUE É SEU.

Pra me manter saudável, eu preciso me proteger.

Quando estou atendendo, como psicóloga, no consultório, eu abro meu campo energético para entrar em sintonia com o do paciente. Isso significa que sou compreensiva, presente e inteira com ele. Esse foco faz com que meu ego possa ficar pequenino, e eu mergulhe no mundo dele. Assim, estou com ele por uma hora, realmente sentindo e entrando em contato com cada palavra, dita e não dita.

No entanto, quando acaba essa hora, eu preciso fechar meu campo e ficar comigo mesma. Não posso abraçar a dor do mundo. Preciso saber abrir, e saber fechar. Ir para o outro, e voltar para mim.

Meu ego me ajuda nisso.

Equilibremos luz e sombra, ego e “eu superior”, porque a diferença da “loucura” e da “sanidade” é a presença do ego.

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* SOMBRA: O que não é integrado em nós, psicologicamente. Algo (sentimentos, padrões mentais e psicológicos, vivências, comportamentos, situações) difíceis e/ou dolorosas de enxergar, aceitar, compreender.

* LUZ: O lado integrado, aceito, agradável e luminoso do mundo interno e externo.

Autor: Gabriela Miranda Celia