554199170726-1434290470O difícil acesso e a lentidão da balsa, ainda manual, para chegar à Comunidade nos fazer viver a simplicidade antes mesmo de chegar. Os sorrisos das crianças e a calmaria da primeira subida escondem os sofrimentos por trás da pacata rotina dos moradores. A Igrejinha logo na entrada nos diz muito, é preciso MUITA fé para viver por lá e a mesma fé que mantém a vida, segrega a pequena Comunidade, a maioria das pessoas não respeitam as diversidades.

As famílias se misturam, a árvore genealógica é confusa, mas ainda assim prevalece a falta de união. Tem muita Maria, muito José e muito João. Falta educação e sobra criança para aprender. Falta saúde e sobra idoso para ser atendido. A educação e a saúde são precárias, a carência de tudo nos salta aos olhos e gera muita indignação. A beleza do céu estrelado é incontestável.

A ausência da ponte de acesso é o primeiro sinal de abandono das autoridades com relação à Comunidade. Abandono esse que fica mais notável a cada dia. Na falta de estrutura da Escola, na ausência de um Médico fixo, no difícil acesso a informação, na falta de saneamento básico, entre tantas outras carências. O abandono se mistura com o comodismo e com a falta de esperança e perspectiva da Comunidade. É tão triste ouvir um jovem responder que quando crescer não quer ser NADA.

O coração sai machucado ao ver Seu Edgar “vivendo” numa condição desumana, sem dignidade alguma. Dona Iná nos mostrou a importância de ser tratada como gente ao contar sua história em que foi tratada uma vida inteira como objeto. O Seu Ramiro perdeu a esposa por uma doença que até hoje, um ano depois, não sabe qual é e ainda assim luta de alguma forma para educar os 5 filhos pequenos que ela deixou. Seu João, um cara bem informado, sabe que a saúde vai de mal a pior, mas não consegue agendar uma consulta para resolver os seus problemas, enquanto isso segue trabalhando firme na roça.

Histórias e mais histórias que nos fazem repensar em cada pequena atitude. Uma confusão de sentimentos. Sentimos-nos grandes e pequenos, justos e injustos, satisfeitos e revoltados ao mesmo tempo. É preciso transformar as coisas, mas ao mesmo tempo em que prevalece a vontade no coração, as mãos parecem atadas. A força de vontade de fazer a diferença às vezes parece pequena perto do sentimento de impotência.

Tentamos alimentar sonhos, tentamos levar informação, tentamos tantas coisas, mas saímos com um incômodo no peito, incômodo esse que nos atrapalha, mas que nos dá a certeza de que é melhor conviver com ele e de alguma forma tentar transformar essas realidades do que não ter olhos e ouvidos atentos para tudo que foi vivido por lá e seguir a vida conformados. É difícil não desistir ao ver um retrato tão fiel dos problemas sociais que nos cercam, o mundo anda mesmo de mal a pior.

Transformar as coisas é mesmo muito complicado, mas começar transformando-nos já é alguma coisa. O pequeno Eliseu de 4 anos, me ensinou a amenizar aflições com um abraço apertado e da mesma maneira que prometi a ele, eu prometo a mim mesma: eu não vou desistir.

Ps: o retrato é infiel, pois as palavras não descrevem de maneira fiel, a experiência.

“Solidários, seremos união. Separados uns dos outros seremos pontos de vista. Juntos, alcançaremos a realização de nossos propósitos.” Bezerra de Menezes.

Autor: Juliana Zanona